domingo

RUAS

É assim mesmo, ocorre quando saio às ruas. Piso as teclas preto e brancas que soam algazarra de crianças. Olhos no chão, cuido livrar abismos. Penso coisas fedidas e molengas sobre a cidade. As instituições natimortas são modernas promessas não cumpridas.

No cimo da ladeira da Carrascosa, antes pouco da curva, um senhor fala sozinho, com panos e panos à venda, à sombra do Tiana. Ele magro, barba por fazer, branca, e olhos apertados. Parece cego, mas não aparece.

A cidade, a calçada e a sombra. Friinha. Um cheiro úmido de mata, um silêncio de gente. Uma esquina é a cidade inteira.

Caminho à rua da Graça onde os palacetes denunciam algo passado. Árvores nas calçadas. As raízes caudalosas fazem do passeio uma fita de Moebius. A terra, o avesso da cidade. A curva na moderna arquitetura imitou a topologia acidentada da natureza, de eras e heras concebida. Há uma objetividade acessível se a cidade em si desfolha o essencial.

Outra cidade, sem brios ou reputação; o anonimato. A verdade chega em trupe. O compartir amigo de imprecisões factíveis. Interpretações que se avizinham. Na linha do verso reescrever o que a notícia borra. Calçadas minadas de carros e fezes, e ainda regozija, salpicado, o cheiro de jaca. Topo a rosa vermelha despachada na garrafa de sidra. Aceno para o garotão levando a gaiola pra passear.

Nativos são defeitos in progress.

Por trás da franja do sonho, o lobo da objetividade quotidiana. Entre a nuca e o pescoço se alojam prestidigitações inconfessas. Reviver em memória quando, o fim, não mais puder andar.



POÉTIKA E POLÍTIKA

O mofo florando na carteira de couro, incólume sobre a mesa, inútil sobre a mesa. Decisões em tons negros. Mas se ela volta esqueço tudo. O escuro, um silêncio, o fundo do mar. Seus peitos: o fundo do mar. O silêncio no meio dos seus cabelos, no seio da tarde; o fundo do mar. Decompõem o impulso de terceiro mundo e a indignação, o nosso silêncio no seio da tarde. Mamando no seio da tarde. Se ela volta, meio tarde, rasgo literatura russa, arranco os dentes rangidos, toco a flauta vértebra. Se ela destampa no meio do nada, os peitos no fundo da tarde, eu ao mar. Homem ao cais, retornado ao seio do mundo.


SENTIMENTO OCEÂNICO


a Wagner Ferraz e Marçal Barreto,
amigos de jardins.




Vagando, cruzando carrinhos de tapioca, gente a trabalho, procuro apartamento para alugar. Conforme cruzo ruela ou avenida, escorrego sob camadas variáveis da cidade. Não há carros. Locomovo-me com patins implantados aos ossos dos pés, descarnados. Cachorros não cruzam as ruas, nem árvores soltam folhas. Salvo pés de Fícus ao modo de fachadas, obrigatório e intransferível, nada ameniza a tonalidade artificial, esmaecida, das platibandas. E bois, alguns bois, de mais a mais, transitam.

Deslizo distinguindo as feições do tempo. O casebre a óleo de baleia e água, feito castelo de areia, resiste. A torre vidro e granito, com minaretes polvilhados ao redor, é suspendida em ligas de metal e alumínio. Alguns predinhos antigos, três andares. Paro diante de um, encantador. A quê, das fissuras da fachada, precisamente dos recantos, uma criaturinha negra se insinua. Derrete para fora do edifício feito pasta. Uma perna, dois braços. Se assemelha a uma espécie de saci, encontrado ao norte do Peru.

Fade out.

As pernas tremulam. Tento abrir os olhos, sem força. A rua cheira cortume, misturado com cheiro de prenha parida. Apalpo-me e alcanço um lencinho de parteira que garroteia meus colhões. Estou envolto em sangue e suor, escorrido num chorume verde cinza. Quem passa me ignora. Os toc-tocs se aproximam e se vão. Talvez esteja numa calçada, ou numa praça.

Fade in.

Já posso enxergar. As bundas transeuntes caminham empinadas, com mulheres de cu trepado. Sapatos íngremes e dedos sobrando; vestem calça jeans com botão aberto aos culotes, transbordando. Maquiagem e suor, hidratante e protetor, derretem. Os peitos amassados e os pés espremidos, escorregando vazados pelos cantos das sandálias. Unhas encravadas e esmaltes descascando.

Fade out.

Percebo agora: não tenho membros. Salvo um. Não posso me locomover, tampouco sou visível. Renasci sob outra forma, guardadas as impressões remasterizadas de vida humana. Só pode. Ou então, como conto esse ponto em panorâmica sobrevida? Sinto cheiro de bolo. Na mesma direção uma porta abre e fecha constante. Haverá um nome para o meu caso? De um olho lacrimeja um sabor ocre, que me alcança a língua. Não tenho fome, ou qualquer necessidade. Quando almoçava à mesa de vidro, enquanto serviam, colocava o rosto na superfície rente ao fundo dos pratos, e espiava as felpas de poeira e as gotículas de água condensadas evaporando sob as travessas quentes. Tarkovski. Apreciava também os reflexos na contraluz rebatida das sancas brancas. Eram formas de ver. Ah, dissimulo beletrices! Na verdade, era uma forma de modificar o entorno, a mesa e os ânimos bem marcados da rotina. Os ângulos bem postos, o jogo americano. Uma obstinação infantil ver o outro lado e avessos quantos. Eu, que pertencia mais à raça dos anões, na fábrica de chocolate, agora esse saci traquino, realizando, por fim e por completo, a reversão do platonismo.

Fade in.

Do outro lado da rua há uma igreja que revejo. Talvez de uma história do Crumb, ou de uma HQ de Will Eisner. Por certo, posso lembrar, New York! É assim que gostaria de estar: um Lugar. De fábulas e fantasmas doutos. Nada de imperícias ou peripécias repetidas. Políticas, milícias, bandidos e outros vícios embutidos. Nada de cimos.

FIM.


A mercê da idade tudo foi simplicidade. Quando a casa era grama e terra; era o jardim da infância. Mais terreiro que alpendre, aquelas bandas. Cheiro úmido, miúdo, agridoce. Graminha, flor delicada e tanto, o caule; daqueles que balouçam ao menor ventinho. Cada libelo tecendo um tapete, rentes umas às outras. Ilhotas entre as pedras de cimento, quadradas e pesadas, formando um passeio para gente. Foi assim minha cidade. Concreto e jardim, Burle Max. A floresta e a escola. Lina Bo. Às vezes Cidade dos Sonhos.

COTIDIANO

Sabemos fingir. Brigar baixinho. No quarto, ninguém percebe. Aprendemos o jeito blasé nem fede, dos encontros de família. Agora somos. Confundimos todo e parte, meio e fim. Começamos em silêncio grave, ressoando dia a dia. Depois cortesia, pois não? Assim sucederam compromissos e cumprimentos. Cordiais que somos, sem brilho nem risco.

Do que não se escapa, o real. Fingir foi ganho. Em dia de feijoada, o chiado do feijão cheirando a casa, o povo feliz; e o emburro no mundo. Melhor pro porco. Sem pés e orelhas, sem esperança, sem medo.

As razões se confundem quando vamos à forra. A vida desanda. Feito ponto de doce. Derrama o leite, modorra o fogão.






CERIMÔNIAS

Havia certo pudor estacionar o carro defronte à casa, empalhando a vista de porta afora. A frente de casa tinha dono. Alguém estacionar? Se o dono consentisse, vá lá. Carro pedante, incapaz de compor respeito à casa, não merecia calçada de gente.



O PEQUENO BENJAMIN

Um varão de trás pra frente. Onipresente. Indefinível. E entanto, vibra. Vibra tudo. Aqui, dia e noite, ignora exaustão. Somos um bloco, uma equipe. Somos altivos. Somos muitos. Eu, você, e o pequeno Benjamin. Tudo tresmudado. Feito Heráclito diante do fogo: o elemento simples, desconcertante, divino.

Cheiro e zelo. O pequeno acorda geme geme. Grunhidos de corneta, compassados, atonais, e repetidos. Um coletivo de onomatopéias. Daí o choro. O semi-grito. A face desfigurada avermelhando. O corpo contorcido, espremendo. Até que pum, um jato quente e amarelo.


Benjamin, ` a luz prima. 

DIAS SINCEROS


a Lílian Canário


Dias sinceros são tristes. Ignoram sol e sombra.
Neles não há curvas, apenas um aclive tobogã
fazendo gozo de freira.

Os dias sinceros cevam fastio
com semblante plástico inerte. Na presença do incômodo um gesto de eficácia;
são assim,
dias sinceros e mortes pressentidas.
Com uma ilusão no meio.

Dias sinceros são atemporais, perdem-se as horas de relógio em sua passagem.
Azuis, marrons ou amarelos,
são poucos, mas variados,
os dias sinceros.

Borra de café, vinho avinagrado –
acre e doce, os dias sinceros.
Dias de pouca palavra,
muita nódoa
e flores no jarro.



É do capitão que elas gostam mais

É domingo à noite. O jardim de um fino restaurante, bairro nobre, cercado de papoulas e acácias, muro baixo. Uma casa modernista, portas brancas de madeira e vidro, ladeada de espigões sem boleios. No interno da casa ambiente climatizado. Cortinas, decoração à italiana, frios diversos pendurados à delicatessen, cordas, panos vermelhos e verdes, madeira escura. Quadros retrô, cartazes de filmes; o vermelho, o branco e o verde. À minha frente, cinco mulheres fumantes, todas mais de 37, sem homens. Uma delas deputada conhecida do povo. Um oito anos sobre a mesa. Algumas rodadas de sushi, gestos largos e despreocupados, conversa solta. Uma ilha.

Ao lado, uma mesa comprida repleta de casais. Em separado, uma menina e sua babá não incomodam a efusividade esganiçada do encontro. Um oito anos, carteiras de cigarro sortidas, smartphones e grandes chaveiros alarme. Não há como evitar os vozeirões e a gorda algazarra, no jardim da casa de arquitetura modernista plenamente conservada. Em miudinho, contraponto às grossas vozes, as mulheres, na outra banda da mesa, uma ao lado da outra, tricotam com agulhas de vidro. Aqui acolá alguma gaitada se desprende e ressoa na arquitetura de concreto à mostra.

Saboreio Insalata con Pasta.

Uma mulher sozinha, na mesa dos casais, atende o celular. Roberto, passei o dia em casa, só saí pra fazer a feira, diz. Vim com a Roberta e o Luis Cláudio, depois eles me deixam em casa. Mas você não quis vir! É incrível uma coisa dessas, é incrível! Eu te perguntei se você ia andar, e você disse que não! Você ligou pra me esculhambar? Eu tenho a chave... Se eu não conseguir entrar vou dormir na mamãe. A mulher se volta à mesa, toma um gole de água-com-gás, e retoma ao telefone. Mãe, talvez eu vá dormir aí, viu? É, pois é, mas quando chegar a gente conversa. Nada transparece aos amigos, distraídos. Eu é que não volto mais pra casa. Ele nunca sai comigo, e não quer que eu saia? Absurdo uma coisa dessas!

Mastigo pepinos fresquinhos com cenouras e pimentões amarelos e vermelhos mergulhados numa taça com água e gelo e uma pitada de sal. À tarde estive com mulheres do Bolsa Família. Uma dizia: Ele gostava de me dar namorado. E toda vez que chegava ia me enchendo de nomes; cada nome desse tamanho! Paciência, tem os filhos; às vezes o filho é apegado ao pai, a gente aguenta. Mas no dia em que me bateu, saí de casa.

Fecha parênteses, a deputada. Uma enquete, uma enquete: vocês preferem o capitão do BOPE ou o Chico Buarque? Em termos de libido, o capitão do BOPE ou Chico Buarque? Hein?! No pescoço, a empolgação das cordas vocais. Uma confessa: Chico Buarque.


A deputada, um tipão, minutos depois retorna do toalete, cambaleando aos braços com a amiga. Ringindo o salto no mármore, antes de chegar à mesa, berra: Capitão Nascimento, meu deus, ô homi lindo!

terça-feira

O TIPO NOVO-MÉDICO

No Brasil somos todos vagabundos, no mínimo preguiçosos. Ao menos é o que parece pensar o tipo novo-médico. Em geral são jovens, recém-saídos da universidade, abrigados em clínicas em que o catedrático da medicina emprestou nome e sobrenome (e assim herdam toda uma confiança angariada décadas a fio, grão a grão, junto ao capital necessário ao negócio, claro). E então o jovem pretendido a doutor, bigode que não passa de buço, ainda graduando, ali faz residência e será, bem provável, dali que suará ganha pão nos primeiros anos de profissão. Então o sujeito, pinto ainda, mal saído do ovo, com aquele jalecão exibindo o nomão (como também se lê a patente na farda do soldado), escrito a cursiva, cobrindo a cafonice da calça jeans fundo baixo e o sapato social surrado, ao tempo em que denuncia sua deselegância (tanto pior pois inocente), suspira um ar de comandante de boeing, do alto de sua blasérice, ora pois, obtusa.

O sujeito pode estar suando frio, derramando coriza pelos ouvidos, e o exame será o mesmo, e as drogas idem: um soro jet para as narinas, um antiinflamatório a base de corticoide, e dez dias de antibiótico (pois agora sete não são mais suficiente). Então não é primeira, nem será última, vou ao consultório médico, sofrendo vinte e quatro horas de febre e prostração... E tendo que solicitar justificativa para dispensa na faculdade, pois não me aguentei, a manhã em pé falando na aula, o rapaz me dá um dia: afinal, três comprimidos e estarei pronto para o retorno, ao trabalho. Não bastasse o constrangimento de pedir penico a outro homem, que deveria saber do desamparo que nos constitui desde o útero, leio sua delação atestada em texto padrão:

Atesto, à pedido, que o paciente acima foi atendido(a) em nossa clínica no dia 23 de fevereiro de 2015. Em virtude dos problemas de saúde que apresentou, necessita ausentar-se das suas atividades profissionais, guardando o necessário repouso, pelo período de 01 (um) dia a partir de hoje”.

Quer dizer, reconhece que o paciente precisa se ausentar, mas só o atesta “à pedido”. O novo-médico é o funcionário modelo da empresa, de uma empresa abstrata e total, que impregna nossas vidas modernosas e nossas relações, como se coisas administráveis fossem. Sequer um apalpo. Sequer uma anamnese interessante, um clima para fluir a história de vida, uma escuta sensível. É identificar sintoma, utilizar instrumentos e receita. Alívio imediato? Fazemos qualquer negócio.


Ao que tudo indica, atestado médico virou carta de alforria, e não será qualquer jovem senhor(a) de engenho pretendido(a) a ßdoutor(a) a se dispor distribuir privilégio de ócio a nego fugido.

Colônia de Férias


Gabriel tira pro Cumbuco vinte e poucos minutos. De moto, com a noiva Erbênia na garupa. Sozinho, uns vinte cravados. Gabriel, cearense, pense, dedica-se ao aprendizado dos carros. Passa horas contando peripécias e artifícios. Tipo moderno, gosta de máquina. Tendência à curiosidade.

Gabriel rompeu o ano com a família, na Colônia de Férias onde seu avô tem direito. Alugaram três casas, cada uma através de um parente. Incidência danada de gente. Beira guerras, o nhenhenhem do compartilhado.

Na colônia, a primeira impressão é fria. O excesso de acimentado: sofá, camas, o guarda-roupa e até o criado, mudo, inamovível. No quarto da frente, as cortinas transparentes de tão gastas. Beje encardidas, com mortos motivos florais. Fora, ao lado, cada casa possui sua churrasqueira de cimento geminada. Atrás, alguns cajueiros e manilhas para lixo. As casas vêm com utensílios. Panelas, as colheres e as conchas, inteiras de alumínio, até o cabo. Impossível segurar sem pano. Queimam na mão. Uma dezena de armadores. Redes, mesmo enroladas nos punhos, aninham a casa. São totens, domesticam o espírito selvagem. Duas cordas, uma rede e um lençol, pro cearense é casa. No quarto da frente quatro janelas, quatro venezianas. Azul forte. Forte o cheiro úmido e eucalipto do banheiro. O gotejar do chuveiro é um metrônomo.

É preciso comprar pulseirinha pra utilizar a piscina. Cada dia uma cor. Parque aquático, toboágua descascado desfia sunga, escorregador de fibra com cascata. Para comodidade, aluga-se: ventilador, colchão, liquidificador, correntes para empunhar rede...

As casas foram construídas de modo a evitar o tête-à-tête dos alpendres. Abertas em leque na orla do terreno, são vinte e oito. Duas por alicerce, uma por cima da outra. No miolo arborizado da Colônia um parquinho com areia e brinquedos de madeira. Cajueiro, mangueira, coqueiro, jambeiro. Zunzunzun constante. Frente às casas e por dentro dos ouvidos, o tempo todo presenças. E há quem frequente por gosto se distrair no nhenhenhem do povo.

Gabriel não fuma. Obedece a mãe, pra revolta da noiva. Participa da cota da cerveja; e não bebe. A cara é de abuso, mas o coração surpreende. Taludo. Bigodinho ralo. Adora usar uma camisa de time; e chinela. Tem o sestro de repuxar a camisa com o indicador e o polegar, para livrar o embolado onde sobra barriga.

Gabriel e Erbênia moram juntos, em casa de sogra. Misturam os bens, as memórias e os humores. Bater a laje e Gabriel fará herança. Constroem um futuro bem sucedido, almejam. Gabriel se orgulha da própria esperteza. A noiva em segundo plano, os bens primeiros. Gabriel ostenta sucesso futuro medindo a bitola do chuveiro; abundando água. Gabriel sua quilos de picanha. Se pudesse vivia sem camisa. Erbênia fala pelos cotovelos. Dói no juízo. A família vive se metendo. Vai trair o marido.



segunda-feira

Recalcada


Veronice. Sua raiva lhe corrói toda. Pele esponjosa, boca grandes lábios. Feição de quem sente um fedor permanente. Não vou falar da cor da pele, pois há tabus servindo para mascarar preconceito em nome da retidão política. Mas o cabelo, posso dizer?: escova progressiva. Faz um jeito Emília em segurar os livros acochados aos peitos fartos. Fala docinho brigadeiro, biquinho feito criança. Infantiliza-se por método. Durante o semestre saúda os coleguinhas e o professor com gracejos e mumunhas que os envergonham, por ela. Chega às aulas sempre de farda, branco e azul. Blusa de lycra colada. Calça de tecido sintético brilhoso, também colada. Nunca observei o calçado.

Veronice quer vencer. Vai vencer! Sua metralhadora beijinho no ombro está apontada para defender seus direitos. Acha-se inatingível à saia justa. Sua objetividade lhe confere o álibi da certeza definitiva. Sempre ao seu favor, apesar. Orgulha-se da verdade de almanaque que empunha. Daí a violência em que se a transforma caso alguma crítica lhe seja desferida. A deselegância que lhe assola os ânimos ela sabe seu ponto fraco. Do veneno, falta-lhe a realeza malemolente e a indiferença sublimes da cobra-coral.

Veronice quer vencer. Vai, Verenice, vai se. 

domingo

Um país de todos


A pediatra, com ciência, explicou. Vacinas do público podem menos; as particulares, mais. Ousei incompreensão. Vacilei bom senso. Assim mesmo: pneumococos, gratuita, Ministério da Saúde, 10 enfermidades. A que se paga cobre 13 enfermidades. Rotavirus do governo uma, do mercado cobre cinco. Penta mais Salk são duas furadas, mais febre e mais dor no posto de saúde. A Hexa no particular cobre ambas, e dói menos. Na alma dóis mais. Embolsa-se a alma, então.


terça-feira

o avô

Meu bebê, que eu amo, dita a esposa sexagenáriaTanto feito, agora idoso, transformado no desfeito, desfecho da tutela. Tanto fez. Cãs não valem vintém. Salvo o benefício. Cartão de aposentado na mão de parente é respeito comprado. 

Cabra grosso a vida toda, foi livre. Não limpa mais a bunda. É meu bebê, que eu amo tanto, rediz a esposa sexagenária torcendo-lhe a cabeça, espremendo-lhe a bochecha. Álbum ambulante de família, o patriarca bêbado. Figurinha repetida. Não cola lembrança, o demente. Não empunha a vontade, nem voz. Melhor pra covardia dos filhos. 

Vão se despedindo, passando a mão pela cabeça. Posando de corajosos, íntimos. Nunca me conheceram, dizia. Nem perdoaram. Pularam o desfecho. Estão no lucro. Subirão os créditos. Revisitam o medo. Do avô pai que virou filho, neto, bebê. Meu bebê que eu amo tanto

h a i c a i


delicadeza:
o bem-te-vi engoliu
a borboleta.





Clóvis, Heloísa


É um cano subterrâneo, uma rodilha de cimento. Escombros. Cinco ou sete polegadas e chega-se a um gargalo à superfície. No orifício estreito Clóvis põe o olho e se deixa entumescer. Heloísa, com uma compressa morna, deita os cabelos aos pés do gargalo, joelhos nus, feitos piso de banheiro, feito pano de chão encharcado retorcido. Clóvis não controla as pálpebras, que levam nas bordas gotas de cerol. Ouve-se o crepitar, e o jato de sangue. Heloísa se volta ereta, lambe o orifício; em seguida, torna a se curvar. Clóvis, remoendo a bunda para aprumar o desconforto, põe o olho no gargalo da rodilha, segurando Heloísa pela chã. Encalca-lhe as unhas grossas e abre um segundo olho, agora nela mesma. Heloísa se mantém de joelhos nus, pernas ligeiramente afastadas, porém... Tremulam. Não é comum. Clóvis funga como se a informasse um imprevisto. Heloísa retoma firmeza, no vinco que opõe, de forma perpendicular, sua chance de ocasião. As unhas de Clóvis se encontram atravessando carne de Heloísa. Fosse uma gelatina de framboesa suas coxas, não sentiria tanta maciez. A bunda de Heloísa em nacos. Clóvis desliza o pé esquerdo entre o umbigo e a pélvis, sem o prejuízo do contato. O diafragma pressente, mas Heloísa, imóvel, permite apenas à cabeça um giro econômico – suficiente para os cabelos grudarem na borda seborrenta da rodilha. Com a língua de ponta para cima Heloísa alcança o terceiro orifício. Com a cabeça fixa na direção do gargalo espera a saliva de Clóvis, que se desprendeu da gengiva e escorre, espumando, pelos contornos do orifício. Heloísa ri, e o seu ânus peida. O ar treme o gargalo, e Clóvis monta no cume  

sábado

OBRIGAÇÃO


Olhos remelentos, cabeça pesada, bexiga cheia. Ricardo é magro inteiriço. Cinco e meia da manhã, olhos boiando. Embaixo, as buzinas sapecam esparsadas. É sábado. Uns fachos de sol beijam as persianas de PVC pérola; o vento a manha açoita pelas frestas.

Oito horas. Ricardo atravessa o portão de ferro e cumprimenta um sorriso aberto na guarita. A vaga de sempre. Ricardo confere as árvores, verdeja o passo, contempla e engolfa a quinta dimensão do espaço. Desliza chiando satisfeito os mosaicos cinza e vermelho opacos na catedral. Reunião de trabalho, Ricardo pressente: contingências, planilhas, acordos.

Meia hora do praxe a corte. A mesa com café - uma garapa!, e frutas. Salgados emborrachados, refresco aguado de cajá e goiaba. Toalha branca de tecido sintético e renda Richelieu plotada – estilo: prático de lavar. Uns colegas vestidos a camisa de time. Ricardo, um passo a parte; educado, polido em brocal. Camisa de vinco, discreto, sagaz. Humor negro, herança paterna.

Chega a diretora, de roda em roda cumprimentando os funcionários naquela conversinha de nadas. Quase loira e chapinha, conjunto calça e paletozinho, ton sour ton com a vida: insossa. Desequilíbrio em tons pastéis. Traiçoeira, divorciada, unhas longas e bem feitas. Exceção à cutícula, inflamada, rósea mostarda. Vamos meu povo, arrebanha.

No auditório as cadeiras estão dispostas em degraus, sobre um chão brilhoso de madeira corrida envernizada ao exagero. Ricardo senta, os colegas lhe demandam ouvidos. Ricardo observa a poeira branca espessa, entranhada nos sulcos das tábuas inteiriças. As luzes fluorescentes e um leve cheiro de verniz se misturam à tinta látex e aos perfumes de muamba. As venezianas são fixas, recobertas com vidro. A parede é creme, o quadro branco, e o ar condicionado. Caixa amplificada e projetor.

Enquanto, Ricardo remói na bunda o inevitável. Precisará decidir após a exposição do departamento financeiro apresentar o corte. Ressente, na base da coluna, o plástico mal plissado da cadeira a granel e branca. É sábado. As decisões não têm férias. A escolha é o serão dos vivos.



INFINITO


Acordou nhum nhum. Ela gosta de fincar e comprimir a boceta em meu joelho, fazer jogo de perna, manha. Mal dormi. Trégua o menino não deu. Remexeu, chorou, aterrorizou, sem cerimônias. Osado. Compartilhou medo nem recalque.

Ela vem assim, toda assim. Eu meio de lado, a perna bem esticada pra desgastar o dengo seu da manhã. Ignoro no trejeito disfarçado, para o modo leve de irritar. Não abro; olho algum. Ela na orelha, cheirinho e coxas, espremendo. Um calor dos diabos empapando o pescoço.

Dormimos os três.

Dia após dia o remoído de fazer menino dormir. Mas quando menos, corre pro nosso quarto e se atreve. O trato é conformar menino e desconforto. Perde-se sono e carneirinho em lição de crescer. O menino seduz, dirige cada qual ao seu fraco. Ela já buchinho novo, não mantém juízo. Deixa a gente trançado, babando.

Vira e mexe: o menino. Barriga, pinto, cabelo; tudo osso e quentinho. Tantas e sempre dá; joelho com cabeça e o menino encolhido nas pernas. Num rompante, guincho o garoto para a cama solteira. Ela nem tchum, intacta.

Demorou. O menino de volta enterra no meu sovaco. Sonambulindo, engravatei-o aos poucos. No que gemeu, ela murmurou qualquer letra. Olhei, por dentro dos braços arrochados; choramingando baixinho, o menino. Não afrouxo. Esperneia, nó cego trançado nas pernas. Tudo quietinho. Sem drama. Ãhn! Ela, olhos-nos-olhos o menino. Ãhên!, ficamos os três. No rame rame geme geme, perna com braço. Cotovelos e dentes roçando, escorrendo. Tremeliques. A cidade dos fantasmas. 

A praça


Desço do carro, travo porta, engancho o pinguelo do chaveiro na boca do bolso, mergulho na praça. Me apoio com o polegar na borda e entro, sem senha. Não preciso direção, não escolho lados. Cambaleio para o meio, tateio com a planta dos pés a parte sem grama e sem cimento. Acendo cigarro, a cidade fade-out.

Ovais, as pessoas vão e voltam. É diária essa meditação peripatética na cidade. Eu plantado no parquinho feito rosa de celofane no canteiro - decorando o coração a seixos. As árvores ameias rebatem a luz. A iluminação de costas. O sombreamento me acolhe, deixa o coração mais tom. Um fusco de não ver e ver, em tons de verde. As pessoas resvalam na borda da praça, vejo-as retorcidas feito roupas na centrífuga. O vento não pousa entre os bancos, repousa nas copas que remexem feito girafas. A praça é uma mitocôndria radiante, um torvelinho no estômago, ilhota de liberdade. A cidade faz cócegas em meu bigode.  

DE VACAS E BÚFALAS


Peitos feitos câmara de ar, gelados, pulando esmagados do vestido. Audísio, agarrando com a mão trocada, balança-os tremelicando. Não encontra os bicos nos pacotes de silicone. O dorso quente. Sente os grãos de suor: orvalho ou mercúrio? Sou toda grande, diz. Quanto mais atiça, elaele repele. A repulsa agrada, fortalece o cru da hora. As pernas de atleta, robustas, roliças, não têm boleios nem pêlos. Um olor forte doce-azedo no ar. Quanto mais tenso mais aumenta o passa-passa, ferozes sobre o freio de mão. A luz do poste recaindo sobre o painel do carro, desfeita em meia, feito abajur, entre as folhas da amendoeira. Elaele economiza gesto, resiste a floreios.

Era pressa, era negócio. Não havia palavra-a-palavra, nem pensamento a delinear os rostos. Feito Cristo, arrastando destino, vontade em cruz, Audísio batendo punheta implorando um gemidinho. Vambora, meu filho, goza. Aqui toda hora tem polícia. Ele nada. Álcool e outras drogas desorientam a lascívia na base em que acendem a luxúria. Viagra. Quanto mais elaele instigava, menos a rigidez mantinha.

Vem, pega no meu cu! Não sai sem gozo. Aliás, por isso ali, sem escolha, pagando pra ter certeza. Elaele meteu, pressentindo na língua o gosto de chouriço. Devaneia. (Cheiro antigo esse, de sangue talhado e merda na cabeça do dedo. Vem do quintal da infância, quando em cima do flandre, entupida de carvão, a panela de pressão piava na lata. Os fatos ferventando horas desde, a manhã evolando o podre em decomposição. As tripas a mãe lavava no tanque. Calorão, suor e fedor, tudo outra vez. Cheirinho antigo esse: sangue talhado e merda, dia de sarrabulho. Dia de gozo vagabundo).

Ai, hun; vem, gostoso, goza gostoso. Na fervura dos gomos o membro de Audísio entesou finalmente. A mão áspera feito bucha arreganhou o cavernoso. Meteu na víscera que rejunta o bofe. Aaai! Fudeu! Encravada nos testículos, a lâmina não considerou. Fofo o esguicho, não foi gozo. Foi embucho. A tromba imberbe de Audísio gotejando, dependurada no banco bege do Corcel. O traveco almiscarado não quis saber história. Arremessou a bolsa pela janela e saltou a porta, cavalgando corpulenta no asfalto rubro negro, feito búfala.


TORNAR-SE PÉROLA


Fui doar, recebi. Recebi-me de volta. Às memórias do antes. Meu coração suburbano. Minha mãe, meu pai, meus avós. Periperi, Plataforma, Paripe... As histórias, o subúrbio. Permanece o que fincou. Invento meus motivos ao redor delas. Compreendem-me. Meu coração reaviva se as reconto. Aumento pontos, marcos na linha do tempo. Meço os desvios, amplio minha órbita. Ao contar, reexisto. No mapa da cidade, na linha da vida, ligo pontos. O destino na palma. Pontilhada de nomes sobre nomes. Sou também o que me contam. Ai de mim!, refém de línguas más.

Feliz ou triste, sou o que vinga. Minhas estações, suas paisagens. Postado na janela contemplava, ainda agora, os percursos de minhas lembranças. Algum naufrágio, alguma beira. Tempestades, absurdos. Fui ilha, ancoradouro, sou deriva. Se passa o trem enveredo em minhas trilhas. Ninguém comigo caminha. À orla desse mar não vejo luz em outro dia.

Cai a noite. A cidade longe, sem estrela, um presépio sem menino. Ôh deus dos desgraçados! Dá-me, além do presente, um passado. A benção de um orgulho. Mas se não ouves, invento. Umas histórias, um casulo intenso de memórias...